Rebeldia
“Não me calo!”, bradou ela inflando o peito e com os olhos lotados de fúria.
– Não me calo! Respeito só existe quando é recíproco! – Bradou novamente seu discurso na frente dos pais.
Já não podia aguentar mais, teve que falar. A vida toda a garotinha passara silenciosamente por situações parecidas, abaixava a cabeça enquanto ouvia berros exageradamente escandalosos por todos os cantos da casa. Quando pequena, olhava para os pés enquanto algumas lágrimas caíam, concentrava-se tanto neles que às vezes nem se lembrava dos sermões.
Na ânsia de estapear a menina, o pai pensa o seguinte:
- A malcriadez dessa menina vem dessas porcarias que ela lê!
- Façamos o seguinte, ela tranca os livros dela num armário em cima da escrivaninha dela, sei bem onde ela esconde a chave, abrimos o armário, pegamos e escondemos todos os livros dela, ou melhor, damos um fim neles, se escondermos é bem capaz dela encontrar, do jeito que é esperta! – Propôs a mãe.
O pai aceitara a resposta e no dia seguinte deram um fim em todos os Schopenhauers, Nietzsches e Gogois que habitavam aquele armário. Só não deram fim aos livros de poesia, pois para eles não tinham muita importância, nem a própria filha ligava muito para eles, normalmente passavam despercebidos quando, em meio ao tédio, ela decidia ler um pouco.
Os dois inflaram o peito e soltaram o ar aliviados, como quem acaba de se livrar de um grande fardo nas costas. “Agora sim ela nos respeitará!” – pensavam os dois.
Ao voltar da escola, como de costume, a filha abre o armário dos livros tão queridos e sente um arrepio na espinha, um arrepio estranho que parecia que nunca ia passar, começou a roer as unhas e, diante daquela situação, sem saber o que fazer, solta um berro ardente que vai parar na copa da casa onde se encontram os pais que se entreolham e sorriem um para o outro como uma espécie de prazer sádico.
O ar entrava e saía rapidamente dos pulmões da menina, desesperada, tenta se conter. “Ora, ainda tenho os de poesia!” – pensava. E começou a recitar: “Na minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o sabiá;/ A aves que aqui gorjeiam,/ Não gorjeiam como lá”.
Leu tanto para poder preencher o vazio da prosa em si, que começou a se interessar mais por poesia. E recitava sem parar, em todos os lugares. Na escola: “Nosso céu tem mais estrelas,/ Nossa várzeas têm mais flores,/ Nossos bosques têm mais vida,/ Nossa vida mais amores”. Na praça: “Em cismar, sozinho, à noite,/ Mais prazer encontro eu lá;/ Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o Sabiá.”. Enfim, declamava em todos os lugares, sem parar! As palavras entravam delicadamente em seus ouvidos, sentia que o vazio estava finalmente sendo preenchido, e que prazeroso era aquilo!
Em casa, chegara já em meio aos berros. Lembrara da época em que olhava para os pés, dessa vez seus pés eram as epopéias e poemas líricos, dos ultra-românticos, aos modernistas e por aí vai. Declamava de cabeça sem se preocupar, quando um grito da mãe a distrai: “Você não está me ouvindo, menina?!”. E então, sem demonstrar qualquer aspecto de fúria na fronte, ela, de maneira teatral, diz para a mãe: “Não permita Deus que eu morra,/ Sem que eu volte para lá;/ Sem que desfrute os primores/ Que não encontro por cá;/ Sem qu’inda aviste as palmeiras,/ Onde canta o Sabiá.” –e se dirigiu para o quarto dando pequenos pulos.
Texto por Lizandra dos Santos, 22 de Dezembro de 2011, às 14:00hs.