The Archive of Lost Dreams
“Toda mulher é meio Leila Diniz”, capítulo 2, “A vida familiar de Leila Diniz”; de Mirian Goldenberg

Leila Diniz


 Tem-se que brigar com o passado, ou melhor, estudá-lo. Arrancar de dentro da gente raízes burguesas e mesquinhas, as tradições, o comodismo e a proteção. É preciso se separar de todos esses problemas criados na infância, do bom, do direito e acho que é aí, nessa separação, nesse rompimento, que a gente tem medo da solidão. Medo de não ser aceito. Acho que é preciso se deseducar para se reestruturar, para se chegar aos instintos verdadeiros dentro da gente, para descobrir o certo da gente. Quando se está livre de toda capa de educação, de boa educação, de direitinho, das normas, dos preconceitos, de tudo que é ensinado pra gente, se poder ter uma visão de vida e de mundo, uma maneira de viver muito mais livre e divertida, muito mais aberta  - Leila Diniz

Parerga e Paralipomena - Cap. XII (Contribuições à Doutrina do Sofrimento do Mundo), §153 - Schopenhauer

 ”Embora possua a mais do que os animais ainda os prazeres intelectuais, a permitem muitas graduações, da brincadeira mais ingênua, ou da conversação, até as realizações espirituais mais elevadas, em contrapartida, do lado dos sofrimentos, se situa o tédio, que o animal, ao menos em estado natural, não conhece, mas de que somente os animais mais inteligentes, em estado natural, não conhece, mas de que somente os animais inteligentes, em estado domesticado, sentem os mais leves traços; enquanto no homem se configura em verdadeiro algoz, como se vê particularmente naquela multidão lastimável dos que constantemente se preocupam somente em preencher seu bolso, mas nunca sua cabeça, e aos quais justamente sua abastança se transforma em castigo, ao entregá-los às mãos do tédio mortificante, para escapar do qual ora se apressam, ora se arrastam, ora se afastam de um lugar a outro, para agora, tão logo presentes, temerosamente se orientam quanto aos recursos do lugar, como faz o necessitado quanto aos possíveis meios de auxílio: pois seguramente a necessidade e o tédio formam os dois pólos da vida humana.”

Parerga e Paralipomena - Cap. VIII (Acerca da Ética), §109 - Schopenhauer

  […] Um ser de vontade tão pecaminosa, espírito tão limitado, corpo tão frágil e volúvel como é o homem, o conceito de dignidade apenas pode ser aplicado ironicamente:

  “Quid superbit homo, cujus conceptio culpa,

  Nasci poena, lobor vita, necesse mori?”

  (“Por que há de se orgulhar o homem? Sua concepção é uma culpa; o nascimento, um castigo; a vida, uma labuta; a morte, uma necessidade!”)

 ”O Monólogo das mãos” 


Se existe uma coisa que eu aprendi nesse minha vida doida de ‘leitora faminta’ é que existe monólogo de tudo, de uma sombra, de ‘não-sei-mais-o-que’ e agora esse das mãos que eu pessoalmente achei fantástico, tanto o texto (parece que de Ghiaroni) como a intérprete (Bibi Ferreira, que já devem estar cansados de ver na TV). 


As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Mirabeau, 
salvou o trono da França e apagou a auréola do famoso revolucionário; 
Múcio Cévola queimou a mão que, por engano não matou Porcena; 
foi com as mãos que Jesus amparou Madalena; 
com as mãos David agitou a funda que matou Golias; 
as mãos dos Césares romanos decidia a sorte dos gladiadores vencidos na arena; 
Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência; 
os anti-semitas marcavam a porta dos judeus com as mãos vermelhas como signo de morte! 
Foi com as mãos que Judas pos ao pescoço o laço que os outros Judas não encontram. 
A mão serve para o herói empunhar a espada e o carrasco, a corda; 
o operário construir e o burguês destruir; 
o bom amparar e o justo punir; 
o amante acariciar e o ladrão roubar; 
o honesto trabalhar e o viciado jogar. 
Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba! 
Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia! 
As mãos fazem os salva-vidas e os canhões; 
os remédios e os venenos;
os bálsamos e os instrumentos de tortura, a arma que fere e o bisturi que salva. 
Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a vista para ver melhor. 
Os olhos dos cegos são as mãos. As mãos na agulheta do submarino levam o homem para o fundo como os peixes; 
no volante da aeronave atiram-nos para as alturas como os pássaros. 
O autor do “Homo Rebus” lembra que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a bebida; 
a primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem. 
Esfregando dois ramos, conseguiram-se as chamas. 
A mão aberta,acariciando, mostra a bondade; 
fechada e levantada mostra a força e o poder; 
empunha a espada a pena e a cruz! Modela os mármores e os bronzes; 
da cor às telas e concretiza os sonhos do pensamento e da fantasia nas formas eternas da beleza. 
Humilde e poderosa no trabalho, cria a riqueza; 
doce e piedosa nos afetos medica as chagas, conforta os aflitos e protege os fracos. 
O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o melhor pacto de amizade ou um juramento de felicidade. 
O noivo para casar-se pede a mão de sua amada; 
Jesus abençoava com as mãos; 
as mães protegem os filhos cobrindo-lhes com as mãos as cabeças inocentes.
Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda por muito tempo agitando o lenço no ar. 
Com as mãos limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas alheias. 
E nos dois extremos da vida, quando abrimos os olhos para o mundo e quando os fechamos para sempre ainda as mãos prevalecem.
Quando nascemos, para nos levar a carícia do primeiro beijo, são as mãos maternas que nos seguram o corpo pequenino. 
E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração pára, o corpo gela e os sentidos desaparecem, são as mãos, ainda brancas de cera que continuam na morte as funções da vida.

‘As três grandes humilhações que afetam a megalomania humana’

O Pecado Original e a Expulsão Do Paraíso, afresco de Michelangelo na Capela Sistina, pintando por volta de 1508-1512.

 Faz pouco tempo que ganhei um livro da minha tia que eu desejava imensamente ao passar pela livraria (detalhe: ele estava à mostra na vitrine, o que aumentava ainda mais a minha vontade de tê-lo). Apesar de ainda estar lendo ele não pude deixar de lado a vontade de postar alguns trechos que no decorrer de cada página até agora lida do livro me chamaram a atenção. 

 O livro se chama “Schopenhauer e os anos mais selvagens da filosofia”, é uma biografia, não tem muita coisa demais por esse detalhe, porém o pouco que há da mostra do talento e do brilhantismo do filósofo do “choro e ranger dos dentes” (pról., pg.13) é bastante significativa, assim como uma “pitada” lírica porém racional de Goethe (com quem Arthur Schopenhauer teve uma curta amizade) e uma pitada histórica de Johanna Schopenhauer (Mãe do filósofo e escritora). 

 No prólogo do livro, o autor cita “As três grandes humilhações que afetam a megalomania humana”, atraída pelo título fui buscar informações. 

 Schopenhauer, muito antes de Freud, estudou radicalmente esse fato. Freud apenas se baseara no filósofo (maior parte de seus estudos são baseados no mesmo). São estes:

 1-Humilhação cosmológica: 

 Nosso mundo é uma das incontáveis esferas girando em um espaço infinito sobre o qual se desenvolveu “um revestimento embolorado que é capaz de viver e de perceber”. 

 2-Humilhação biológica:

 O ser humano é um animal cuja inteligência serve exclusivamente para compensar perante o mundo sua falta de instintos desenvolvidos e seu ajustamento orgânico defeituoso. 

 3-Humilhação psicológica:

 Nosso Eu consciente não é senhor de sua própria casa.


 Três descobertas feitas em uma época em que o mundo girava em torno da religião, era o que o movia e foi exatamente esta que foi lesionada. Na humilhação cosmológica o mundo muda com a teoria do Heliocentrismo, antes acreditava-se que a Terra era o centro do Universo, não o Sol, essa ideia então é quebrada por Copérnico, que apresentara um modelo heliocêntrico de Universo. A segunda, humilhação biológica, o homem é reinserido no restante do mundo animal, graças a Darwin e sua teoria do Evolucionismo (mudança de características hereditárias conforme o tempo), quebrando assim a teoria do Criacionismo (basicamente, os famosos: Adão e Eva/ A vida criada sob ação do sobrenatural [Deus, no caso]). A terceira e última, graças à psicanálise (talvez… à filosofia, a base da psicanálise fora esta, por exemplo: os estudos de Freud tiveram grande influência da filosofia Schopenhauriana) que revelou que o ego estava sujeito a determinismos internos cuja verdadeira natureza permanecia inconsciente.

 Não apenas a religião fora atingida, como o próprio homem, preso em suas crenças. Graças a esses estudos, essas descobertas, essas humilhações, que seja, a igreja tem uma perda significativa de seguidores conforme o tempo vai passando, veja que hoje em dia o mundo gira em torno da Ciência e Informação, dos Fatos, tudo há de ser provado atualmente. O ser humano sofre, talvez, a decepção perante o erro, suas crenças são ‘quebradas’ e agora ele vive em um mundo baseado apenas em algo que fora provado, a ideia de um ‘Deus’ agora é vã, pois têm-se os fatos. 

Crônica da Loucura: A Melhor Terapia - Luis Fernando Veríssimo

O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou. Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal. O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco. Ninguém olha para ninguém. O silêncio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos,corintianos ou palmeirenses. Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a sala de espera de um “consultório médico”, como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos: Na última quarta-feira, estávamos: 1. Eu 2. Um crioulinho muito bem vestido, 3. Um senhor de uns cinqüenta anos e 4. Uma velha gorda. Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do princípio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali,tão cabisbaixos e ensimesmados. (2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para levá-lo até aquela poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o namoro e não conseguiu entrar como sócio do “Harmonia do Samba”? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina. (3)E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos? Como ele estavasofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro,abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual? Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido. (4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que semasturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse. Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista. Conto para ele a minha “viagem” na sala de espera. Ele ri… Ri muito, o meu psicanalista, e diz: - O Ditinho é o nosso office-boy. - O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades. - E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe. - “E você, não vai ter alta tão cedo…”

Crônica da Loucura: A Melhor Terapia - Luis Fernando Veríssimo

O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou. 

Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal

O melhor da terapia é chegar antesalguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco. 

Ninguém olha para ninguém. O silêncio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos,corintianos ou palmeirenses. 

Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a sala de espera de um “consultório médico”, como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos: 

Na última quarta-feira, estávamos: 
1. Eu 
2. Um crioulinho muito bem vestido
3. Um senhor de uns cinqüenta anos 
4. Uma velha gorda

Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do princípio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali,tão cabisbaixos e ensimesmados

(2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para levá-lo até aquela poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o namoro não conseguiu entrar como sócio do “Harmonia do Samba”? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina. 

(3)E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos? Como ele estavasofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdoCorno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança totalmedo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro,abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual? Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daquelesTingido. 

(4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que semasturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensavaEstava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse. 

Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista

Conto para ele a minha “viagem” na sala de espera. 

Ele ri… Ri muito, o meu psicanalista, e diz: 

- O Ditinho é o nosso office-boy. 

- O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades. 

- E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe. 

- “E você, não vai ter alta tão cedo…”

Maldição!

Baudelaire, Macalé, Luiz Melodia

Quanta maldição!
O meu coração não quer dinheiro, quer poesia!

Baudelaire, Macalé, Luiz Melodia
Rimbaud - A missão
Poeta e ladrão
Escravo da paixão sem guia

Edgar Allan Poe tua mão na pia
Lava com sabão tua solidão

Tão infinita quanto o dia 

 (Maldição - Zeca Baleiro)

                                     

 Há uma possibilidade muito grande de que dentre um grupo de pessoas, pelo menos metade delas, ao serem indagadas sobre o conhecimento que têm sobre os autores Edgar Allan Poe, Bocage, Byron e Álvares de Azevedo, pelo menos metade (acredito eu) diriam que ‘já ouviram falar’, ‘tenho um conhecimento prévio disso’ ou simplesmente ‘conheço’.

 Os poetas citados acima têm características muito marcantes em suas liras, a presença do pessimismo por exemplo. Trata-se de um grupo de poetas famosos pela melancolia em seus escritos e por terem tido um modo de vida diferenciado do resto da sociedade, -normalmente excluindo-se dela- tendo normalmente hábitos considerados autodestrutivos, como o alcoolismo (a mais famosa bebida e idolatrada por eles: Absinto) e o abuso de drogas resultando quase sempre no suicídio ou na morte prematura (no caso eu diria um ‘suicídio indireto’), além de levarem, normalmente, uma vida boêmia. 

   Conhecidos também como ‘poetas malditos’. Os Românticos (termo designado para os artistas do movimento ‘Romantismo’) utilizaram o termo para retratar François Villon, sendo considerado, assim, o primeiro poeta maldito da literatura. Em 1832, o pai da expressão, Alfred de Vigny, utiliza o termo pela primeira vez em sua peça “Stello”, em uma pequena passagem que se refere à eles como “a raça para sempre maldita entre os poderosos da terra”. Em 1888, em homenagem ao seu amigo e amante Arthur Rimbaud, Paul Verlaine publica o livro intitulado “Les Poètes Maudits”, contendo poemas de autores como o próprio Rimbaud, Mallarmé e Corbière, com isso o termo populariza-se mais ainda. 

                                               

 Não só os autores mais antigos são rotulados assim, apesar de serem mais comuns naquela época os reprovados (sin.: maldito) podemos encontrar mais para frente também tais poetas com o mesmo modo de vida autodestrutivo e boêmio e a melancolia e pessimismo nas liras, como Charles Bukowski e Fernando Pessoa. 

          Quadro de Modigliani     

 Erroneamente, ao falarmos de ‘artista maldito’, pensamos que eles só viviam de poesia, porém também viviam de artes plásticas, tendo se destacado os artistas Francisco de Goya (com o famoso e marcante: ‘O sono da razão produz monstros.’), Lautrec (muito conhecido por retratar em seus quadros a vida boêmia [graças aos bares que frequentava] e ter um estilo muito peculiar, contendo em suas obras, formas distorcidas e muitas cores),  Modigliani (retratando também a vida boêmia, tendo um estilo bastante peculiar, seus quadros normalmente eram compostos por uma figura sensual e atraente, observe no quadro acima como o nu chama com os olhos o espectador), entre outros. 

 

 

  Desespero

Ruth não queria mais esperar. Encaixou sua face cheia de sardas nas grades da janela. Tinha olhos azuis bem claros e cabelos loiros que reluziam quando o sol batia, também tinha unhas curtas, porque as roia, naquele mesmo instante as estava roendo. Esperou aquele dia por tanto tempo, até se arrumou duas horas antes, ele estava atrasado e ela não podia suportar aquilo.
 Roia as unhas de uma mão desesperadamente enquanto a outra apertava as grades da janela com força, movimentos que entravam em sincronia com suas pernas que iam cruzando e descruzando, cruzando e descruzando…
 Desassossegada, ouvia qualquer barulho de porta de carro (onde morava haviam muitos) e já entrava em desespero pensando que era ele –o roer de unhas, a mão com força nas grades, cruzar e descruzar de pernas. Sentiu o nervosismo percorrer toda sua espinha, um calafrio que nunca tivera antes, seria a segunda vez que o veria, “será que ele está me enganando? Será que ele tem outra?” –esses pensamentos percorriam sua cabeça incansavelmente (o roer de unhas, a mão nas grades, as pernas se cruzando).
 Vendo a situação em que estava, tentou se controlar. Tentou  pensar em outras coisas, contar carros, observar as pessoas que passavam por lá, neste mesmo instante começou a se acalmar –o roer de unhas e a mão nas grades.  Viu que estava conseguindo, sentiu-se vitoriosa, contou mais carros, ao todo eram vinte e um –a mão nas grades.
 Naquele mesmo instante, com um sorriso largo brotando do seu rosto, vê o amante apressado, correndo até a porta da frente da casa com uma feição de preocupação.
 –Desculpe o atraso! –diz ele já se acalmando ao avistá-la na janela.
   Então vagarosamente ela tira sua mão da grande, com um sorriso imenso estampado no rosto e corre até ele.
 Texto por Lizandra dos Santos, dia 24 de Dezembro, 10:56.

  Desespero

Ruth não queria mais esperar. Encaixou sua face cheia de sardas nas grades da janela. Tinha olhos azuis bem claros e cabelos loiros que reluziam quando o sol batia, também tinha unhas curtas, porque as roia, naquele mesmo instante as estava roendo. Esperou aquele dia por tanto tempo, até se arrumou duas horas antes, ele estava atrasado e ela não podia suportar aquilo.

 Roia as unhas de uma mão desesperadamente enquanto a outra apertava as grades da janela com força, movimentos que entravam em sincronia com suas pernas que iam cruzando e descruzando, cruzando e descruzando…
 Desassossegada, ouvia qualquer barulho de porta de carro (onde morava haviam muitos) e já entrava em desespero pensando que era ele –o roer de unhas, a mão com força nas grades, cruzar e descruzar de pernas. Sentiu o nervosismo percorrer toda sua espinha, um calafrio que nunca tivera antes, seria a segunda vez que o veria, “será que ele está me enganando? Será que ele tem outra?” –esses pensamentos percorriam sua cabeça incansavelmente (o roer de unhas, a mão nas grades, as pernas se cruzando).
 Vendo a situação em que estava, tentou se controlar. Tentou  pensar em outras coisas, contar carros, observar as pessoas que passavam por lá, neste mesmo instante começou a se acalmar –o roer de unhas e a mão nas grades.  Viu que estava conseguindo, sentiu-se vitoriosa, contou mais carros, ao todo eram vinte e um –a mão nas grades.
 Naquele mesmo instante, com um sorriso largo brotando do seu rosto, vê o amante apressado, correndo até a porta da frente da casa com uma feição de preocupação.
 –Desculpe o atraso! –diz ele já se acalmando ao avistá-la na janela.
   Então vagarosamente ela tira sua mão da grande, com um sorriso imenso estampado no rosto e corre até ele.

 Texto por Lizandra dos Santos, dia 24 de Dezembro, 10:56.

  Rebeldia
 “Não me calo!”, bradou ela inflando o peito e com os olhos lotados de fúria. 
 – Não me calo! Respeito só existe quando é recíproco! – Bradou novamente seu discurso na frente dos pais.
 Já não podia aguentar mais, teve que falar. A vida toda a garotinha passara silenciosamente por situações parecidas, abaixava a cabeça enquanto ouvia berros exageradamente escandalosos por todos os cantos da casa. Quando pequena, olhava para os pés enquanto algumas lágrimas caíam, concentrava-se tanto neles que às vezes nem se lembrava dos sermões. 
 Na ânsia de estapear a menina, o pai pensa o seguinte: 
 - A malcriadez dessa menina vem dessas porcarias que ela lê!
- Façamos o seguinte, ela tranca os livros dela num armário em cima da escrivaninha dela, sei bem onde ela esconde a chave, abrimos o armário, pegamos e escondemos todos os livros dela, ou melhor, damos um fim neles, se escondermos é bem capaz dela encontrar, do jeito que é esperta! – Propôs a mãe.
 O pai aceitara a resposta e no dia seguinte deram um fim em todos os Schopenhauers, Nietzsches e Gogois que habitavam aquele armário. Só não deram fim aos livros de poesia, pois para eles não tinham muita importância, nem a própria filha ligava muito para eles, normalmente passavam despercebidos quando, em meio ao tédio, ela decidia ler um pouco. 
 Os dois inflaram o peito e soltaram o ar aliviados, como quem acaba de se livrar de um grande fardo nas costas. “Agora sim ela nos respeitará!” – pensavam os dois.
 Ao voltar da escola, como de costume, a filha abre o armário dos livros tão queridos e sente um arrepio na espinha, um arrepio estranho que parecia que nunca ia passar, começou a roer as unhas e, diante daquela situação, sem saber o que fazer, solta um berro ardente que vai parar na copa da casa onde se encontram os pais que se entreolham e sorriem um para o outro como uma espécie de prazer sádico.
 O ar entrava e saía rapidamente dos pulmões da menina, desesperada, tenta se conter. “Ora, ainda tenho os de poesia!” – pensava. E começou a recitar: “Na minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o sabiá;/ A aves que aqui gorjeiam,/ Não gorjeiam como lá”.
 Leu tanto para poder preencher o vazio da prosa em si, que começou a se interessar mais por poesia. E recitava sem parar, em todos os lugares. Na escola: “Nosso céu tem mais estrelas,/ Nossa várzeas têm mais flores,/ Nossos bosques têm mais vida,/ Nossa vida mais amores”.  Na praça: “Em cismar, sozinho, à noite,/ Mais prazer encontro eu lá;/ Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o Sabiá.”. Enfim, declamava em todos os lugares, sem parar! As palavras entravam delicadamente em seus ouvidos, sentia que o vazio estava finalmente sendo preenchido, e que prazeroso era aquilo!
 Em casa, chegara já em meio aos berros. Lembrara da época em que olhava para os pés, dessa vez seus pés eram as epopéias e poemas líricos, dos ultra-românticos, aos modernistas e por aí vai. Declamava de cabeça sem se preocupar, quando um grito da mãe a distrai: “Você não está me ouvindo, menina?!”. E então, sem demonstrar qualquer aspecto de fúria na fronte, ela, de maneira teatral, diz para a mãe: “Não permita Deus que eu morra,/ Sem que eu volte para lá;/ Sem que desfrute os primores/ Que não encontro por cá;/ Sem qu’inda aviste as palmeiras,/ Onde canta o Sabiá.” –e se dirigiu para o quarto dando pequenos pulos. 
 Texto por Lizandra dos Santos, 22 de Dezembro de 2011, às 14:00hs. 

  Rebeldia

 “Não me calo!”, bradou ela inflando o peito e com os olhos lotados de fúria.

– Não me calo! Respeito só existe quando é recíproco! – Bradou novamente seu discurso na frente dos pais.

 Já não podia aguentar mais, teve que falar. A vida toda a garotinha passara silenciosamente por situações parecidas, abaixava a cabeça enquanto ouvia berros exageradamente escandalosos por todos os cantos da casa. Quando pequena, olhava para os pés enquanto algumas lágrimas caíam, concentrava-se tanto neles que às vezes nem se lembrava dos sermões.

 Na ânsia de estapear a menina, o pai pensa o seguinte:

 - A malcriadez dessa menina vem dessas porcarias que ela lê!

- Façamos o seguinte, ela tranca os livros dela num armário em cima da escrivaninha dela, sei bem onde ela esconde a chave, abrimos o armário, pegamos e escondemos todos os livros dela, ou melhor, damos um fim neles, se escondermos é bem capaz dela encontrar, do jeito que é esperta! – Propôs a mãe.

 O pai aceitara a resposta e no dia seguinte deram um fim em todos os Schopenhauers, Nietzsches e Gogois que habitavam aquele armário. Só não deram fim aos livros de poesia, pois para eles não tinham muita importância, nem a própria filha ligava muito para eles, normalmente passavam despercebidos quando, em meio ao tédio, ela decidia ler um pouco.

 Os dois inflaram o peito e soltaram o ar aliviados, como quem acaba de se livrar de um grande fardo nas costas. “Agora sim ela nos respeitará!” – pensavam os dois.

 Ao voltar da escola, como de costume, a filha abre o armário dos livros tão queridos e sente um arrepio na espinha, um arrepio estranho que parecia que nunca ia passar, começou a roer as unhas e, diante daquela situação, sem saber o que fazer, solta um berro ardente que vai parar na copa da casa onde se encontram os pais que se entreolham e sorriem um para o outro como uma espécie de prazer sádico.

 O ar entrava e saía rapidamente dos pulmões da menina, desesperada, tenta se conter. “Ora, ainda tenho os de poesia!” – pensava. E começou a recitar: “Na minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o sabiá;/ A aves que aqui gorjeiam,/ Não gorjeiam como lá”.

 Leu tanto para poder preencher o vazio da prosa em si, que começou a se interessar mais por poesia. E recitava sem parar, em todos os lugares. Na escola: “Nosso céu tem mais estrelas,/ Nossa várzeas têm mais flores,/ Nossos bosques têm mais vida,/ Nossa vida mais amores”.  Na praça: “Em cismar, sozinho, à noite,/ Mais prazer encontro eu lá;/ Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o Sabiá.”. Enfim, declamava em todos os lugares, sem parar! As palavras entravam delicadamente em seus ouvidos, sentia que o vazio estava finalmente sendo preenchido, e que prazeroso era aquilo!

 Em casa, chegara já em meio aos berros. Lembrara da época em que olhava para os pés, dessa vez seus pés eram as epopéias e poemas líricos, dos ultra-românticos, aos modernistas e por aí vai. Declamava de cabeça sem se preocupar, quando um grito da mãe a distrai: “Você não está me ouvindo, menina?!”. E então, sem demonstrar qualquer aspecto de fúria na fronte, ela, de maneira teatral, diz para a mãe: “Não permita Deus que eu morra,/ Sem que eu volte para lá;/ Sem que desfrute os primores/ Que não encontro por cá;/ Sem qu’inda aviste as palmeiras,/ Onde canta o Sabiá.” –e se dirigiu para o quarto dando pequenos pulos. 

 Texto por Lizandra dos Santos, 22 de Dezembro de 2011, às 14:00hs.